Resistência e dissuasão: a estratégia de alto risco do Irã para a guerra
O Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e resistência. Reuters via BBC A postura militar do Irã em um conflito crescente com Israe...
O Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e resistência. Reuters via BBC A postura militar do Irã em um conflito crescente com Israel e os Estados Unidos sugere que o país não está lutando por vitória em um sentido convencional. Está lutando pela sobrevivência — e por sobreviver em seus próprios termos. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp AO VIVO: Acompanhe as últimas notícias sobre a guerra no Oriente Médio Os líderes e comandantes da república islâmica vêm se preparando para esse momento há anos. Eles sabiam que suas ambições regionais poderiam eventualmente provocar um confronto direto com Israel ou com os EUA, e que uma guerra com um provavelmente atrairia o outro. Esse padrão ficou evidente na Guerra de 12 Dias em junho de 2025, quando Israel atacou primeiro e os EUA se juntaram dias depois. Na atual rodada de combates, os dois lançaram ataques contra o Irã simultaneamente. Dada a superioridade tecnológica, as capacidades de inteligência e o avançado equipamento militar dos EUA e de Israel, seria ingenuidade achar que os estrategistas iranianos estivessem planejando uma vitória direta no campo de batalha. Em vez disso, o Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e resistência. Na última década, o país investiu fortemente em mísseis balísticos, drones de longo alcance e em uma rede de grupos armados aliados em toda a região. O Irã também entende as suas próprias limitações: o território continental dos EUA está fora de alcance, mas as bases americanas espalhadas pela região — especialmente em países árabes vizinhos — não estão fora de alcance. Já Israel está bem dentro do alcance de mísseis e drones iranianos, e conflitos recentes demonstraram que os seus sistemas de defesa aérea podem ser penetrados. Cada projétil que atravessa esses sistemas carrega não apenas peso militar, mas também psicológico. Mapa mostra as bases militares dos EUA no Oriente Médio. Kayan Albertin/Arte g1 O cálculo do Irã também se baseia, em parte, na economia da guerra. Os interceptadores usados por Israel e pelos EUA são muito mais caros do que muitos dos drones e mísseis empregados pelo Irã. Um conflito prolongado obriga os EUA e Israel a gastar recursos de alto custo para interceptar ameaças comparativamente baratas. A energia é outra alavanca na economia da guerra. O Estreito de Ormuz continua sendo um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o transporte de petróleo e gás. O Irã não precisa fechar completamente essa estreita via marítima do Golfo. Mesmo ameaças críveis e interrupções limitadas já elevaram os preços e, se continuarem, podem aumentar a pressão internacional por uma desescalada do conflito. Nesse sentido, a escalada se torna uma ferramenta voltada não necessariamente para derrotar militarmente os adversários do Irã, mas para elevar o custo de continuar a guerra. Isso nos leva aos ataques contra países vizinhos. Ataques com mísseis e drones contra países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Iraque parecem ter sido concebidos para sinalizar que abrigar forças dos EUA traz riscos. O Irã pode esperar que esses governos pressionem os EUA a limitar ou interromper as operações, mas essa é uma aposta perigosa. Expandir ainda mais os ataques corre o risco de endurecer a hostilidade desses países e empurrá-los com mais firmeza para o campo EUA–Israel. As consequências de longo prazo podem durar mais que a própria guerra, remodelando os alinhamentos regionais de formas que deixariam o Irã mais isolado. Se a sobrevivência é o objetivo principal, então ampliar o círculo de inimigos é um passo de alto risco. Ainda assim, do ponto de vista do Irã, a contenção pode parecer igualmente arriscada se for interpretada como sinal de fraqueza. Relatos de que comandantes locais podem estar selecionando alvos ou lançando mísseis com relativa autonomia levantam novas questões. Se confirmada, essa situação não indicaria necessariamente o colapso das estruturas de comando. A doutrina militar iraniana, especialmente dentro da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, há muito incorpora elementos descentralizados para garantir continuidade sob ataques intensos. Redes de comunicação são vulneráveis à interceptação e ao bloqueio. Comandantes de alto escalão têm sido alvo de ataques. A superioridade aérea dos EUA e de Israel limita a supervisão central. Nessas condições, listas de alvos previamente autorizadas e delegação de autoridade para lançamentos podem ser medidas deliberadas contra uma "decapitação" da liderança. Essa estrutura pode explicar como as forças iranianas continuaram operando após a morte de figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e mesmo após a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques iniciais conduzidos por EUA e Israel no sábado (28/2). Mas a descentralização também traz riscos. Comandantes locais atuando com informações incompletas podem atingir alvos não intencionais, incluindo Estados vizinhos que buscavam manter neutralidade. A ausência de um quadro operacional unificado aumenta a probabilidade de erros de cálculo. Se isso se prolongar, também pode resultar na perda de comando e controle. Em última análise, a abordagem do Irã parece se basear na crença de que o país pode suportar punições por um tempo maior do que o tempo que seus adversários estariam dispostos a suportar os danos e custos da guerra. Se for esse o caso, trata-se de uma forma de escalada calculada: resistir, retaliar, evitar o colapso total e esperar que surjam fissuras políticas do outro lado. Ainda assim, a resistência tem limites. Os estoques de mísseis são limitados e as linhas de produção estão constantemente sob ataque. Os lançadores móveis são atingidos em movimento e substituí-los leva tempo. A mesma lógica se aplica aos adversários do Irã. Israel não conseguiu confiar completamente em seus sistemas de defesa aérea. Cada brecha amplia a ansiedade pública. Os EUA precisam pesar a escalada regional, a volatilidade do mercado de energia e o custo financeiro de operações prolongadas. Ambos os lados parecem supor que o tempo está a seu favor. Os dois não podem estar certos. Nesta guerra, a república islâmica não precisa de triunfo. Ela precisa permanecer de pé. Resta saber se esse objetivo é alcançável, sem alienar permanentemente seus vizinhos.